Enquanto empresas fecham no Brasil, o Paraguai abre as portas

 


No Brasil, o panorama de deterioração do ambiente empresarial ganhou uma dimensão alarmante. Convivendo com juros de dois dígitos pelo quinto ano consecutivo; com condições de crédito restritivas (a maior crise de crédito desde o Plano Real); situação fiscal preocupante; taxa de investimento em nível reduzido; endividamento elevado das famílias; consumo retraído e custos crescentes, os negócios ficaram extremamente pressionados. Como resultado, o país registrou, em julho, o recorde de 9,2 milhões de empresas inadimplentes.

Pela teoria econômica, juros altos encarecem o crédito; crédito caro reduz os investimentos; custos crescentes comprimem as margens e inflação elevada reduz o poder de compra, restringindo as vendas. Como consequência perversa, fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, compromissos são postergados, os estoques são reduzidos e os empregos ficam ameaçados.

A crise atual não atinge apenas as grandes corporações. Embora o noticiário destaque nomes conhecidos, como Americanas, Casas Bahia, Marisa, Tok&Stok, Gol, Oi, Raízen, Braskem e Light, segundo a Serasa Experian, são as micro e pequenas empresas que concentram a esmagadora maioria dos CNPJs inadimplentes.

O campo também entrou em zona de risco. Acostumado a conviver com as incertezas climáticas, o agricultor passou a enfrentar outro risco, igualmente implacável: o financeiro. No primeiro semestre os casos de recuperação judicial cresceram 25% em relação ao semestre anterior e 71% em doze meses, atingindo principalmente os pequenos produtores, com dificuldades de financiamento, elevado custo dos insumos, margens comprimidas e oscilação dos preços agrícolas.

Enquanto o Brasil enfrenta tantas dificuldades, o Paraguai abre as portas para os investidores, oferecendo energia barata, sistema tributário mais simples e menor custo trabalhista (no Paraguai o custo total da mão de obra chega a ser 40% menor do que no Brasil). Como resultado, mais de 230 empresas brasileiras, dos setores de varejo, alimentos, bebidas, têxtil, calçados e autopeças, transferiram para o país vizinho parte de suas operações ou instalaram unidades produtivas lá, como as dos grupos Renner, Centauro, Riachuelo, C&A, Havan, Carrefour, Karsten, Dasstex (Adidas e Nike), Coca-Cola, Ambev, Nestlé, JBS, Lupo, Estrela e Camil.

Quando milhões de empresas enfrentam simultaneamente dificuldades financeiras, não é razoável atribuir o problema à incompetência dos empresários individualmente. Algo estrutural está acontecendo. O empresário brasileiro não atravessa a fronteira porque deixou de gostar do seu país. Faz isso porque precisa sobreviver, crescer e competir.

O Brasil usufrui de vantagens competitivas extraordinárias: território, recursos naturais, energia, mercado consumidor, agricultura eficiente, capacidade empresarial e uma indústria diversificada. Mas, quando desassistidas, tais vantagens não são suficientes para compensar um ambiente econômico desfavorável. Vale uma regra elementar da economia: não existe empresa competitiva em um ambiente permanentemente hostil à produção.

Mas o Brasil pode mudar essa trajetória. Para isso, precisa reduzir o custo do Estado, diminuir a burocracia, melhorar as condições de crédito, ampliar a segurança jurídica e criar condições para que investir aqui volte a ser uma decisão racional.

Fonte Jornal O Sul.