Petrobras tem "margem enorme" em gás, diz diretor da ANP


Por Roberto Samora e Marta Nogueira

SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO, 7 Ago (Reuters) - A Petrobras captura uma "margem enorme" no mercado de gás natural, o que contribui com altos preços no mercado brasileiro, afirmou nesta sexta-feira o diretor da agência reguladora do setor ANP Pietro Mendes, em momento em que há um movimento no governo para reduzir os custos do insumo para a indústria.

A declaração foi feita durante reunião de diretoria da ANP, que aprovou nesta sexta-feira consulta e audiência públicas do programa "gas release", que prevê disponibilizar ao mercado parte dos volumes que a Petrobras comercializa, em uma tentativa de ampliar a concorrência no mercado.

Defendido pelo governo, o "gas release" enfrenta algumas resistências na Petrobras.

"O grande atravessador que nós temos no mercado hoje é a própria Petrobras", afirmou o diretor e relator do processo de "gas release", que já foi presidente do conselho de administração da Petrobras e secretário de Petróleo e Gás Natural do Ministério de Minas e Energia.

"No Brasil, é caro porque a gente tem um atravessador que encarece o preço do gás natural no Brasil", reiterou ele.

Procurada, a Petrobras não respondeu imediatamente a pedidos de comentários sobre as declarações do diretor.

Mendes disse durante sua apresentação que a Petrobras compra de terceiros o gás natural na boca do poço por cerca de US$3,8 por milhão de BTU e o revende a distribuidoras e consumidores livres não térmicos por aproximadamente US$12,4 por milhão de BTU, uma margem de US$8,6 por milhão de BTU. Ele não comentou sobre os custos da Petrobras no transporte e no processamento.

Segundo a apresentação, cerca de 3,5 milhões de metros cúbicos/dia dos 18,6 milhões de metros cúbicos/dia comercializados pela companhia vêm de compras de terceiros, e o restante é produção própria.

A proposta do "gas release" não prevê a utilização da produção própria da Petrobras para cumprimento da meta de desconcentração, explicou Mendes, que reagiu a críticas públicas colocadas pela Petrobras ao programa nos últimos dias.

O programa do "gas release" prevê a realização de leilões regulados pela autarquia para oferta de volumes de gás hoje adquiridos pela Petrobras de terceiros produtores ou importados da Bolívia, permitindo que outros comercializadores tenham acesso a esses volumes e disputem clientes com a estatal.

Em teleconferência de resultados trimestrais, a CEO da Petrobras, Magda Chambriard, disse que a empresa ainda não sabe como a discussão da nova regulação vai terminar, mas indicou que mudanças regulatórias não podem afetar a rentabilidade dos projetos da companhia.

Ela ressaltou que qualquer alteração regulatória geralmente enseja revisão de projetos.

"Todo e qualquer projeto tem que ser lucrativo para a empresa. Nós não somos uma ONG, somos uma empresa que tem de dar lucro", afirmou.

A proposta do governo federal de implementar o "gas release" levou a Petrobras a suspender estudos para um gasoduto de US$1 bilhão associado ao projeto Sergipe Águas Profundas (Seap), disseram pessoas com conhecimento do assunto à Reuters, no início da semana.

O diretor de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras, William Nozaki, disse que a companhia vai se manifestar sobre o assunto durante a consulta pública.

Mendes, por sua vez, afirmou que o "gas release" busca ampliar a liquidez do mercado e facilitar o acesso de comercializadores independentes a volumes de gás, contribuindo para uma formação de preços mais competitiva.

O diretor da ANP lembrou que, nos últimos anos, a União reduziu a concentração de mercado, com programas de privatização da rede de gasodutos. Mas o "agente dominante" ainda comercializa 56% do total.

A proposta ficará em consulta pública por 45 dias antes de eventual deliberação final da agência.

LEILÕES E REDUÇÃO DA CONCENTRAÇÃO

A proposta estabelece um primeiro ciclo regulatório de leilões entre 2027 e 2030.

O primeiro edital seria publicado em 2027, com leilão previsto para o segundo semestre daquele ano e entrega dos volumes negociados em 2028.

Novos leilões ocorreriam anualmente até 2029, para entrega de gás nos anos subsequentes.

Em 2030, a ANP realizaria uma avaliação dos resultados do programa para decidir sobre sua continuidade, encerramento ou eventual reformulação.

Segundo a área técnica da agência, o objetivo é reduzir o Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), medida de concentração de mercado utilizada por autoridades antitruste em todo o mundo, dos atuais 3.747 pontos para menos de 2.500 pontos até 2030.

Esse patamar faria o mercado brasileiro de gás deixar a classificação de "altamente concentrado" para "moderadamente concentrado".

(Edição de Marta Nogueira)