Tarifaço de Trump expõe limites do Brasil para aumentar sua participação no comércio global


Após acumular bilhões de reais em linhas de crédito com juros subsidiados por meio das três edições do programa Brasil Soberano, criado como resposta ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, o governo federal busca agora ampliar a presença do Brasil em novos mercados internacionais.

A estratégia inclui incentivar empresas afetadas pelas novas tarifas americanas, fortalecer a diversificação das exportações e reduzir a dependência de poucos parceiros comerciais. No entanto, especialistas avaliam que o país ainda enfrenta um antigo desafio: a baixa participação da economia brasileira no comércio exterior.

Apesar das barreiras impostas pelos Estados Unidos, as exportações brasileiras mantiveram trajetória de crescimento. Em 2025, o país exportou US$ 348,3 bilhões, alta de 3,3% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente pelo aumento das vendas para mercados como China e União Europeia.

O movimento continua em 2026. No primeiro semestre deste ano, as exportações cresceram 11,5% na comparação com o mesmo período de 2025, com destaque para a forte expansão das vendas destinadas à China, que avançaram 22%.

Mesmo com esse desempenho positivo, a participação brasileira no comércio global permanece abaixo do potencial econômico do país. Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil ocupou em 2025 a 24ª posição entre os maiores exportadores do mundo, uma colocação considerada distante do tamanho da economia nacional.

Países com Produto Interno Bruto (PIB) menor que o brasileiro aparecem à frente no ranking internacional, como Holanda, Coreia do Sul, México, Vietnã, Suíça, Polônia e Emirados Árabes Unidos. Para especialistas, essa diferença revela problemas estruturais que dificultam uma maior inserção brasileira no mercado mundial.

Entre os principais obstáculos estão a elevada carga tributária, dificuldades regulatórias, custos logísticos, burocracia e um histórico de proteção à produção nacional que reduziu a integração do país às cadeias globais de comércio.

O Brasil também possui uma quantidade limitada de acordos comerciais em comparação com outras economias emergentes. Embora o país tenha avançado recentemente em negociações como o acordo entre Mercosul e União Europeia e o tratado do bloco sul-americano com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, a maior parte das relações comerciais brasileiras ainda ocorre fora de acordos preferenciais.

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que, antes dos novos tratados, apenas 15,7% do fluxo comercial brasileiro — considerando exportações e importações — era realizado com países que possuem acordos comerciais com o Brasil. Com a entrada em vigor dos novos acordos, essa participação poderá chegar a 34,7%, mas ainda ficará abaixo de países latino-americanos como Chile, Peru, México e Colômbia, onde esse índice ultrapassa 70%.

Segundo especialistas, o cenário internacional atual representa tanto um risco quanto uma oportunidade. A guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos, com a imposição de tarifas sobre diversos países, aumentou a instabilidade nas relações comerciais e tornou mais urgente a busca por novos parceiros.

Para Giorgio Rossi, gerente da Firjan Internacional, o comércio global passa por uma mudança de paradigma. Segundo ele, o enfraquecimento das regras multilaterais da Organização Mundial do Comércio e o avanço de medidas protecionistas alteraram a dinâmica das relações econômicas entre países.

Além das tarifas, a investigação americana sobre produtos relacionados ao uso de trabalho forçado trouxe novas exigências para empresas exportadoras, aumentando a necessidade de rastreabilidade e controle das cadeias produtivas.

Por outro lado, alguns economistas avaliam que o momento pode ser aproveitado pelo Brasil para ampliar sua abertura comercial e fortalecer setores estratégicos. A transição para uma economia de baixo carbono, por exemplo, pode abrir novas oportunidades, já que o país possui grande potencial em energia renovável e recursos naturais.

A expectativa é que áreas como energia limpa, siderurgia sustentável, agricultura de baixo carbono e infraestrutura digital possam atrair investimentos e ampliar a presença brasileira no comércio internacional.

Apesar das oportunidades, especialistas alertam que medidas emergenciais de crédito, como as oferecidas pelo programa Brasil Soberano, ajudam empresas no curto prazo, mas não resolvem desafios estruturais de competitividade.

Para aumentar sua participação no mercado global, o Brasil precisaria avançar em reformas que reduzam custos, simplifiquem regras, ampliem acordos comerciais e melhorem o ambiente de negócios para empresas nacionais e estrangeiras.

O desafio, segundo analistas, é transformar a atual crise comercial em um ponto de partida para uma estratégia de longo prazo, capaz de posicionar o Brasil de forma mais competitiva no cenário econômico mundial.

Fonte: Jornal O Sul