Nova safra de soja do Brasil pode crescer apesar de cautela financeira e El Niño, diz Datagro

Por Roberto Samora

SÃO PAULO, 30 Jul (Reuters) - A área projetada para o plantio de soja no Brasil em 2026/27 deverá crescer apenas 0,3% sobre o ciclo anterior 2025/26, o menor crescimento em 20 anos, por cautela financeira e climática dos produtores, incluindo riscos relacionados ao El Niño, avaliou a consultoria Datagro nesta quinta-feira.

O primeiro levantamento da Datagro para o plantio da cultura em 2026/27, que começa em meados de setembro, indica que o maior produtor e exportador global de soja pode ampliar a área pelo 20º ano consecutivo, para 49,3 milhões de hectares.

"O crescimento da área é o menor nesses 20 anos seguidos de aumento na soja. Apesar da expectativa de preços um pouco melhores e renda ainda positiva para 2027, o produtor está receoso e na defensiva: por endividamento recente, margens apertadas...", afirmou o head de Grãos da Datagro, Flávio França Júnior, à Reuters.

Ele comentou ainda sobre preocupações relacionadas ao que vem sendo chamado de "Super El Niño", que seria um risco para a safra no centro-norte do país, o que demanda cuidados em momento em que há aumento das exigências no crédito privado e alta nos custos de produção.

França Júnior comentou, contudo, que o El Niño é tradicionalmente favorável à produção de grãos de verão no centro-sul, com chuvas acima da média, que eventualmente até podem gerar algumas perdas pelas precipitações excessivas, como em 2016 e 2024.

"E (o El Niño) é tradicionalmente desfavorável nas regiões Norte/Nordeste. Que tem um peso menor na produção total. A preocupação aqui é se chover aquém do necessário no norte do Mato Grosso", afirmou ele, referindo-se ao principal Estado produtor brasileiro.

Considerando esse cenário, a Datagro estimou uma produtividade média nacional de 3.763 kg/ha, o que superaria em 1% o recorde de 2025/26. "Como resultado, temos potencial produtivo de 185,6 milhões de toneladas de soja, 1% a mais do que as 182,8 milhões de toneladas da safra deste ano", disse.

O especialista ponderou que qualquer mudança mais brusca nos preços na bolsa de Chicago nos próximos dois meses, com o chamado "mercado climático" relacionado à produção dos EUA, pode mexer na intenção de plantio, que por enquanto deverá ter um "aumento residual" em áreas de pastagens degradadas.

AVANÇO TAMBÉM NO MILHO

Para o milho, a estimativa inicial da Datagro aponta avanço nas áreas cultivadas tanto na safra de verão (+2%), para 4,3 milhões de hectares, quanto na de inverno (+3%), para 19,4 milhões de hectares, com impulso principalmente da demanda no país para a produção de etanol.

A produção total está estimada preliminarmente em recorde de 147,5 milhões de toneladas, 2% superior ao volume de 2025/26, com a segunda safra respondendo por 118,1 milhões de toneladas.

"No milho, o impulso está vindo da forte demanda interna, com crescimento previsto de 4% na demanda para ração e de 14% para etanol. Além de demanda firme para exportação", disse o especialista da Datagro.

A consultoria estima que o setor de etanol de milho possa processar mais de 32 milhões de toneladas do cereal em 2026/27, enquanto o consumo para nutrição animal interna deve atingir mais de 64 milhões de toneladas.

(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima)