Brasil despenca em ranking de produção industrial; entenda crise do setor mais afetado pelo tarifaço

A indústria de transformação brasileira, segmento mais afetado pelo tarifaço dos Estados Unidos, enfrenta um processo de perda de competitividade que se prolonga há décadas. Especialistas apontam que juros elevados, baixa taxa de investimento, alta carga tributária e dificuldades de inserção internacional estão entre os principais fatores que explicam o enfraquecimento do setor.

Um levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), com dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), mostra que o Brasil ficou na 69ª posição entre 90 países em desempenho da indústria de transformação no primeiro trimestre de 2026. No período, a produção do setor recuou 0,1%.

O resultado representa uma piora expressiva em relação aos últimos anos. O país estava na 33ª colocação no primeiro trimestre de 2024, quando a indústria cresceu 1,7%, caiu para o 47º lugar em 2025 e chegou ao atual patamar.

Segundo especialistas, a taxa Selic em 14,25% ao ano é um dos principais obstáculos para a indústria, já que o setor depende de investimentos de longo prazo. Juros elevados aumentam os custos das empresas e reduzem a capacidade de expansão e modernização.

Outro fator apontado é o comportamento do câmbio. Quando o real está valorizado, produtos importados ficam mais baratos e ampliam a concorrência com a produção nacional. Já em períodos de desvalorização da moeda brasileira, a indústria local ganha maior competitividade.

Dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostram que a produção industrial brasileira ainda opera cerca de 15% abaixo do pico registrado em 2011. Nos primeiros meses de 2026, o crescimento ficou concentrado principalmente na indústria extrativa, enquanto a indústria de transformação permaneceu praticamente estagnada.

A participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) também caiu significativamente: de 35,9% em 1985 para 11,8% em 2025, segundo a Firjan.

Para economistas, a recuperação do setor depende de medidas estruturais, como aumento dos investimentos, melhoria da infraestrutura, ampliação de acordos comerciais, redução da burocracia e maior integração do Brasil ao comércio internacional.

A alta tributação também é apontada como um dos entraves. Especialistas avaliam que a Reforma Tributária pode ajudar a reduzir custos e estimular a produtividade, mas os efeitos devem aparecer de forma gradual.

Além disso, o tarifaço norte-americano tende a atingir principalmente empresas brasileiras mais dependentes do mercado dos Estados Unidos. Embora medidas emergenciais possam reduzir impactos no curto prazo, especialistas afirmam que a recuperação da indústria exige mudanças de longo prazo para elevar a competitividade do país.

Fonte: Jornal O Sul.