Ataques com drones fora do campo de batalha impulsionam mercado de tecnologias para combatê-los


BERLIM, 18 Jun (Reuters) - As invasões de drones que estão causando transtornos nos aeroportos da Europa e os ataques a campos de petróleo no Oriente Médio estão impulsionando um mercado em rápido crescimento de radares, bloqueadores de sinal e aeronaves defensivas para proteger aeroportos e infraestruturas contra novas ameaças aéreas.

A tecnologia dos drones vem causando transtornos nos aeroportos há anos, com o Aeroporto de Gatwick, em Londres, entre aqueles que tiveram que suspender voos devido a alertas de drones antes de 2020. No entanto, uma nova onda de invasões ligadas às guerras na Ucrânia e no Oriente Médio intensificou ainda mais essas preocupações.

Os avanços tecnológicos recentemente apresentados em resposta incluem uma ferramenta em forma de arma da empresa norte-americana Dedrone, capaz de bloquear drones, e um “companheiro de voo” autônomo da Boeing que voa ao lado de caças, transportando bloqueadores e armas antidrones.

O setor está atraindo bilhões de dólares em investimentos, indo muito além do uso militar para setores como energia, transporte marítimo, centros de dados, hotéis e aeroportos.

A Avinor, que possui e opera 43 aeroportos em toda a Noruega, é uma das empresas que já instalou um sistema de detecção de drones em suas operações para lidar com as "interrupções e atrasos" que as incursões de drones civis têm causado ao tráfego aéreo.

A Reuters conversou com meia dúzia de executivos de empresas especializadas em combate a drones, que descreveram um aumento acentuado na demanda por parte de governos, aeroportos e operadores de infraestrutura civil.

"Há um efeito direto do grande número de pessoas que nos procuram", disse Siete Hamminga, presidente-executivo da RobinRadar, uma empresa de combate a drones sediada na Holanda cuja tecnologia surgiu a partir de pesquisas sobre colisões com aves que afetam aeronaves.

MERCADO DE CONTRAMEDIDAS CONTRA DRONES CRESCE CERCA DE 20% AO ANO

Táticas de guerra híbrida na Europa e no Oriente Médio destacaram a necessidade de proteger bases econômicas e civis, como portos, campos de petróleo e aeroportos.

Ataques com drones no aeroporto de Dubai, incursões nos países bálticos, incêndios causados por detritos resultantes da interceptação de drones na Zona Petrolífera de Fujairah e alertas de suspeita de drones em aeroportos de Munique e Copenhague causaram perturbações no último ano.

Algumas autoridades aeroportuárias europeias disseram à Reuters que pretendem intensificar o uso de tecnologia de combate a drones.

Ash-Alexander Cooper, executivo da Dedrone até junho, que conversou com a Reuters antes de deixar a empresa, disse que as solicitações começaram logo após o início da guerra no Irã, no final de fevereiro, com pessoas pedindo soluções que pudessem ser instaladas “o mais rápido possível”.

“Imagino que sejamos uma das muitas empresas procuradas, agora que muito mais governos — não apenas no Oriente Médio — percebem o quanto estão vulneráveis, com a extensão e a natureza da ameaça dos drones evoluindo em tempo real”, disse ele.

Analistas estimam que o mercado global de sistemas antidrones valha entre US$3 bilhões e US$7 bilhões, crescendo cerca de 20% ao ano. Um relatório da MarketsandMarkets estima que ele atingirá US$14,5 bilhões até 2030, ante os atuais US$4,5 bilhões.

Eben Frankenberg, presidente-executivo da Echodyne, fabricante de radares para detecção de drones, disse que o investimento em uma nova fábrica que sua empresa inaugurará este ano multiplicará sua capacidade anual para mais de 30 mil unidades.

“Em termos de demanda por nossos radares, observamos um crescimento bem superior a 100% no ano passado, e isso não está diminuindo”, disse ele.

REGRAS RIGOROSAS SOBRE O USO CIVIL DE TECNOLOGIA ANTIDRONE

Apesar do forte interesse, os desafios regulatórios e as questões relacionadas à segurança ainda limitam a implantação da tecnologia antidrones fora da esfera militar.

Os aeroportos civis têm regras rígidas sobre quais tecnologias podem ser utilizadas contra drones e continuam focados principalmente em ferramentas de detecção.

Questões como bloqueio de sinal e interferência no GPS podem interromper as comunicações e a navegação, tornando esses sistemas inadequados para uso nas proximidades de aeroportos. Além disso, normalmente não é permitido usar armas para derrubar drones em um ambiente civil.

“Simplesmente não é possível usar os chamados meios cinéticos eficazes, como metralhadoras ou similares, perto de infraestruturas civis”, afirmou um porta-voz da fabricante alemã de radares Hensoldt .

No que diz respeito a decidir como os sistemas que funcionam em cenários de campo de batalha podem ser utilizados de forma legal e segura em cenários civis, muito depende das autoridades nacionais.

“O que é permitido é uma questão regulatória que precisa ser respondida pelos governos”, disse Stephanie Lingemann, chefe da divisão aérea da Helsing, empresa alemã especializada em drones e IA. “Não podemos tomar essa decisão.”

'JOGO DE GATO E RATO'

Enquanto isso, os drones estão se multiplicando e se tornando cada vez mais sofisticados.

“É sempre um jogo de gato e rato”, disse Mike Schut, diretor comercial da DroneShield, que utiliza sensoriamento de radiofrequência em seu sistema de combate a drones. “Alguém cria um drone, e precisamos garantir que continuemos à frente.”

No mercado em geral, analistas alertaram que tecnologias cada vez mais sofisticadas são caras, chegando a custar centenas de milhares de dólares — e nem sempre funcionam.

“No momento, estamos em modo de pânico, e todo mundo está adquirindo absolutamente todas as ferramentas que consegue encontrar em seu arsenal para sentir que tem um pouco mais de controle”, disse Greg Falco, professor da Universidade de Cornell.

“Estou vendo tanta coisa que não passa de charlatanismo.”

(Reportagem adicional de Federico Maccioni, Alessandro Parodi, Christoph Steitz e Timm Reichert)