Programa do governo para inadimplentes, o Desenrola amplia a renegociação, mas não é garantia de sair das dívidas, dizem especialistas
Economistas e planejadores financeiros ouvidos pela Folha de S.Paulo afirmam que o retorno ao endividamento costuma estar ligado não apenas aos juros elevados, mas também à dependência crescente do crédito para pagar despesas do dia a dia e à falta de reorganização financeira após os acordos.
“Renegociar uma dívida sem mudar a dinâmica financeira que levou ao endividamento é como esvaziar um barco com um balde sem tampar o furo. O alívio imediato até existe, mas a água continua entrando”, afirma a especialista em finanças pessoais Carol Stange.
Segundo ela, o principal erro é tratar a inadimplência como episódio isolado. Stange afirma que o risco de voltar a entrar no vermelho costuma ser maior entre autônomos, pessoas com renda variável e famílias que passaram por desemprego, doença ou separação. Nesses casos, diz, pesa a dificuldade de manter uma renda estável.
Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, diz que o Desenrola poderia aproveitar o momento da renegociação para incluir etapas de educação financeira e conscientização sobre consumo. “Se renegocia e continua gastando mais do que ganha, volta ao mesmo problema em poucos meses”, afirma. “O brasileiro precisa reorganizar o orçamento, reduzir excessos e construir reserva financeira. Sem isso, daqui a pouco vamos ter um Desenrola 3.0”, diz.
Para Reginaldo Nogueira, diretor nacional do Ibmec, o avanço da inadimplência também está ligado a fatores estruturais da economia brasileira, com crescimentos reais de salário pequenos e juros muito altos. “Muita gente passou a usar cartão e parcelamento não para consumir mais, mas para fechar o orçamento do mês.”
Cautela
Antes de renegociar, especialistas recomendam reorganizar o orçamento. Domingos diz que o primeiro passo antes de fechar a renegociação é entender se o orçamento familiar comporta novas parcelas. “O problema não é a dívida em si. A dívida pode ser uma ferramenta financeira, ela faz você ter coisas antes para pagar depois. O grande risco é gastar mais do que se consegue pagar nas datas de vencimento”, afirma.
Segundo ele, isso exige uma “faxina financeira”, com revisão de hábitos de consumo e corte de excessos. Em alguns casos, pode envolver trocar serviços e reduzir padrões de consumo.
Uma estratégia apontada por Carol Stange é consolidar dívidas em linhas de crédito mais baratas, limitar o uso do cartão ao valor que pode ser pago integralmente e automatizar pequenos aportes mensais para formar uma reserva de emergência.
Ao reorganizar as contas, especialmente entre famílias de baixa renda, a prioridade é preservar despesas essenciais (moradia, alimentação, energia elétrica e água).
Segundo Nogueira, dívidas de serviços básicos costumam gerar mais urgência na renegociação do que as bancárias, por envolverem o corte do serviço.
O problema se agrava, afirma, quando a pessoa começa a comprometer despesas básicas para pagar dívidas antigas, num quadro de superendividamento.
Nesse contexto, dívidas com garantia real, como financiamento imobiliário e de veículos, também ganham prioridade, já que o atraso pode resultar na perda do bem. Depois disso, afirma Carol Stange, o principal critério passa a ser o custo dos juros: rotativo do cartão de crédito e cheque especial costumam liderar a lista das dívidas mais caras e, por isso, deveriam entrar primeiro na renegociação.
A velocidade com que esses juros crescem, segundo Adrian Carvalho, planejador financeiro e CEO da Quartavia, faz com que esperar descontos maiores nem sempre seja a melhor estratégia. Ele afirma que muitos consumidores adiam acordos porque programas de renegociação costumam oferecer abatimentos maiores para dívidas mais antigas, enquanto o saldo devedor continua aumentando.
“Tem gente que pensa: ‘vou esperar mais um pouco para sair de 70% para 85% de desconto’. Mas a economia de juros perdida nesse período costuma ser maior do que o ganho adicional no abatimento”, diz.
Para quem tem múltiplas dívidas, Carvalho recomenda renegociar por etapas. “A pessoa fecha quatro renegociações em duas semanas e depois descobre que comprometeu 70% da renda com novas parcelas.” (Com informações da Folha de S.Paulo)
Fonte: Jornal O Sul
