Brasil pode registrar exportação recorde de café em 2026/27, projeta diretor da Eisa
Por Roberto Samora
SANTOS, 20 Mai (Reuters) - O Brasil terá exportações recordes de café em 2026/27 (julho/junho), diante da expectativa de que a colheita deste ano "muito provavelmente" será a maior da história, projetou nesta quarta-feira o diretor comercial da exportadora Eisa, uma das maiores do mundo.
Um crescimento nos volumes exportados pelo país, maior produtor e exportador global de café, é esperado após uma temporada em 2025/26 que deve encerrar com queda nos embarques, após uma safra abaixo do potencial em 2025 e estoques brasileiros baixos.
"Estamos bastante otimistas... Muito provavelmente o Brasil vai ter a maior safra da história (em 2026/27). E isso rapidamente a gente vai começar a ver nos embarques. Talvez em julho, agosto vai começar a pronunciar isso", afirmou Carlos Santana, da Eisa, à Reuters, nos bastidores do Seminário Internacional do Café, em Santos.
O Brasil está apenas no início da colheita 2026/27, tendo colhido cerca de 5% da safra de café, com destaque para a variedade canéfora (robusta e conilon), afirmou o diretor comercial da Eisa, referindo-se aos trabalhos em Rondônia e Espírito Santo, que começam antes da safra de arábica, com cafezais em sua maioria em Minas Gerais e São Paulo.
À medida que a safra esteja colhida, as exportações brasileiras devem "surpreender bastante" positivamente nos últimos meses de 2026, uma vez que a grande safra brasileira ajudará a recompor os estoques, que estão baixos no mundo.
O diretor da exportadora disse que não gostaria de falar em números, mas acredita que as exportações de café verde no novo ano-safra poderiam se aproximar de 50 milhões de sacas de 60 kg.
Em um ano calendário, o último recorde do Brasil foi registrado em 2024, com 46,3 milhões de sacas de café verde, segundo dados do conselho de exportadores do país, o Cecafé. Naquele ano, considerando o produto industrializado, os embarques superaram 50 milhões de sacas.
Consultorias privadas têm apontado uma produção brasileira de mais de 70 milhões de sacas em 2026/27, com impulso da colheita de grãos arábica, que responde pela maior parte do total colhido no Brasil e está no ano de alta de produtividade do ciclo bienal. A corretora StoneX, por exemplo, projeta 75,3 milhões de sacas para a safra do país, citando clima favorável e investimentos nas lavouras após um período de preços recordes.
O aumento nas exportações ocorreria após uma esperada queda de 17% no total exportado pelo Brasil em 2025/26, para 38 milhões de sacas (verde e industrializado), segundo número estimado pelo diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, para o encerramento do ciclo em relação a 2024/25.
Ele considerou que o Brasil deverá exportar um pouco mais de 6 milhões de sacas em maio e junho, os meses remanescentes do ciclo atual.
A queda em 2025/26 foi resultado de uma safra abaixo do potencial, em um período em que as exportações também foram prejudicadas por alguns meses pelo tarifaço de Donald Trump, que limitou os embarques brasileiros para o principal mercado global, os Estados Unidos.
"Certamente, no segundo semestre (de 2026) vai ser melhor", disse Matos, durante o seminário, sobre a recuperação das exportações brasileiras com a chegada da grande safra ao mercado, em relação aos embarques menores recentes.
Santana, da Eisa, também destacou que os embarques brasileiros ganhariam força no segundo semestre, já com uma parte da safra brasileira colhida.
"Os estoques estão baixos em todo lado. O 'pipeline' está muito vazio... Não só nos destinos, eu acho que nas origens também", observou ele, citando que o mercado futuro está "invertido", quando os preços estão mais altos no primeiro vencimento.
"Então isso, de alguma maneira, vai estimular o produtor brasileiro a exportar mais rapidamente essa safra. E a gente tem visto isso, é uma característica do inverso."
EFEITO EL NIÑO
Santana avaliou que o fenômeno climático El Niño em formação deverá ser, em um primeiro momento, benéfico para a safra brasileira do ano que vem (2027/28), uma vez que o clima mais quente esperado reduz o risco de geadas no próximo inverno.
Por outro lado, o El Niño pode trazer problemas se as chuvas forem insuficientes entre setembro ou outubro de 2026 para garantir as floradas da próxima safra.
"Eu acho que isso vai determinar muito, em algum momento, a decisão de venda do produtor", afirmou.
"Eu tenho até brincado aqui um pouco no seminário que no Brasil só se fala de duas coisas: se o Neymar vai para a seleção e, a segunda, qual a intensidade do El Niño? Então, acho que isso em algum momento vai determinar a decisão do produtor."
A próxima safra seria a de baixa do ciclo bianual de arábica do Brasil, e os impactos do El Niño precisam ser monitorados, mas os preços recordes de anos recentes colaboraram para fortes investimentos nas lavouras, renovações de áreas e novos plantios, disse o consultor de Gerenciamento de Riscos da StoneX, Fernando Maximiliano.
Isso pode minimizar impactos climáticos, acrescentou o especialista, ponderando que anos de El Niño não "afetam muito o potencial do arábica, afetam mais o robusta", variedade esta que responde por uma parcela menor da produção brasileira.
"O plantio novo pode compensar os efeitos do ano de baixa (do arábica). Se o clima colaborar, não seria uma safra pequena (a de 2027/28)", disse Maximiliano.
(Por Roberto Samora; edição de Letícia Fucuchima)