Pode faltar diesel no Brasil? Entenda o cenário após o conflito no Oriente Médio
O Brasil não deve sofrer com a falta de diesel no curto prazo, apesar de a oferta do produto ter diminuído por causa do conflito no Irã. Desde o início da guerra – que se alastrou pelo Oriente Médio -, o cenário se agravou com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção global de petróleo.
“Não vemos problemas de abastecimento em abril”, afirma Sergio Araújo, presidente-executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). “O Brasil é muito grande. Pode ser que haja excesso de produto em algum lugar, com um estoque um pouco mais alto. Em outros, pode haver um estoque um pouco menor, com alguma falta pontual.”
O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo, mas depende de uma fatia das importações de diesel por causa da limitação da capacidade de refino do País. Em geral, essa importação varia entre 25% e 30% do que é consumido no País.
No ano passado, por exemplo, o consumo total do produto no País foi de 59 milhões de metros cúbicos, e o Brasil importou 17 milhões de metros cúbicos de diesel A – aquele sem a mistura do biodiesel. A maior parte veio da Rússia (47%), dos Estados Unidos (33%) e da Índia (9%).
“Não há desabastecimento de diesel no País”, afirma Carlos Orlando, diretor de downstream do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP). “Nós temos uma produção, que somada às importações, dá uma tranquilidade para abril.”
Embora o cenário não seja crítico, desde o início do conflito, o Brasil colheu relatos de falta de combustível. Como mostrou o Estadão, produtores rurais lidaram com uma verdadeira saga para encontrar o diesel em plena época de colheita.
No Rio Grande do Sul, um terço dos municípios do Estado relataram dificuldade na compra do combustível, segundo a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs). As cidades de Formigueiro, Tupanciretã, Júlio de Castilhos e São Sepé decretaram emergência por falta de combustível.
Os especialistas dizem que vários motivos podem explicar essa falta pontual de diesel, como uma demanda atípica – o Rio Grande do Sul está fazendo a colheita de arroz e soja – e um aumento de estoque por causa da alta dos preços.
“O diesel é o combustível do qual o Brasil mais depende para atender ao abastecimento da nossa matriz logística, concentrada no transporte rodoviário. É dependente tanto das atividades econômicas em geral quanto do escoamento de grãos e da safra agrícola do País”, diz João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia.
“O Brasil tem uma série de condições que permitem que o país navegue nessa crise energética global de maneira não tão desconfortável quanto grandes países que têm uma dependência ainda maior de importação”, acrescenta.
Quando começou o conflito, o Brasil tinha um estoque de diesel de 40 dias de consumo, segundo Marcus D’Elia, sócio-diretor da Leggio Consultoria. Em geral, boa parte dos países trabalha com estoques de 60 a 80 dias. “Era um estoque baixo, mas não era um estoque ruim. É limitado e pode ser melhor”, afirma.
Uma visão de mais longo prazo dos efeitos do conflito ainda é difícil de enxergar, porque há uma série de incertezas – quanto tempo o conflito deve durar e se haverá uma escalada ou não da guerra.
Nos últimos dias, o presidente norte-americano Donald Trump tem dito que os Estados Unidos devem sair do Irã “muito rapidamente”. O republicano também afirmou que o presidente do regime iraniano acaba de pedir um cessar-fogo.
Na visão de Marcus, a dificuldade na importação de diesel deve seguir pelos próximos 90 a 100 dias. Não significa que a guerra vá durar todo esse período, mas ele explica que, mesmo após o fim do conflito, leva tempo para o mercado retomar alguma normalidade. “Vai haver um tempo para recuperar a logística do petróleo”, diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fonte: Jornal O Sul
