Lula diz que anulará leilão de gás de cozinha feito pela Petrobras
A petroleira já havia cancelado, em março, sem explicações ao mercado, leilões de diesel e gasolina, após o diesel ter sido negociado nos certames entre R$1,80 e R$2,00 por litro acima do preço de referência das refinarias da própria companhia, segundo entidades do setor.
Posteriormente, a petroleira optou por escoar os volumes que seriam leiloados por meio de volumes extras em contratos já existentes, garantindo aos clientes preços mais baixos do que aqueles que seriam praticados em leilão.
"Agora fizeram um leilão (de GLP) com ágio de 100%. Como é que você vai permitir que o povo arque com essa responsabilidade? Não vai, pode ficar certa, não vai", disse o presidente em entrevista à TV Record Bahia, em Salvador, onde participará de cerimônia sobre investimentos em mobilidade urbana nesta quinta-feira.
"As pessoas sabiam da orientação do governo, da orientação da Petrobras: não vamos aumentar GLP, não vamos aumentar. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras e nós vamos rever esse leilão, nós vamos anular esse leilão", disse Lula, repetindo que o governo não permitirá que a população brasileira pague o preço da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que tem elevado os preços do petróleo e gás globalmente.
Os preços derivados do petróleo dispararam ao longo de março no mercado internacional, com a escalada de conflitos no Oriente Médio, que fez o petróleo de referência Brent subir de US$70 o barril no fim de fevereiro para mais de US$100 atualmente.
Os valores dos combustíveis se tornaram uma grande preocupação para Lula, que busca a reeleição neste ano, e também vêm se tornando um problema crescente para a Petrobras, que tenta ao mesmo tempo agradar seu acionista controlador (o governo) e cumprir regras internas que a impedem de operar com prejuízo ou sem remuneração adequada a pedido do governo.
Embora a Petrobras seja uma grande produtora de combustíveis, o Brasil ainda depende de importações, o que torna o país mais vulnerável às flutuações dos preços internacionais.
Desde que Lula assumiu em 2023, a companhia adotou uma política de preços com foco em proteger os consumidores da volatilidade externa e está atualmente com preços de gasolina e diesel, por exemplo, amplamente defasados ante o mercado externo.
Procurado, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de GLP (Sindigás) disse que não se manifesta sobre preços e ressaltou que "é de conhecimento público que os preços do petróleo e de seus derivados vêm sofrendo forte pressão, em grande parte decorrente de conflitos com impacto relevante sobre a cadeia global do petróleo".
O Sindigás disse ainda acreditar que "possíveis medidas para conter os efeitos da disparada do petróleo no exterior por conta do cenário de guerra serão tratadas de forma técnica pelas autoridades competentes, e devem ser capazes de capturar com maior rapidez os efeitos de mudanças abruptas de mercado".
Como parte dos esforços, a Petrobras anunciou na quarta-feira que permitirá que distribuidoras parcelem o aumento de 54,8% nos preços do querosene de aviação (QAV) anunciado para abril pela companhia, e informou que uma medida semelhante poderá ser adotada em maio e junho. Os preços do QAV são reajustados no início de cada mês, por contrato, com base em indicadores internacionais.
Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, o governo Lula anunciou uma série de medidas voltadas a reduzir impactos da disparada de preços no exterior ao consumidor brasileiro, incluindo cortes de impostos e um programa de subvenção ao diesel.
Na entrevista, Lula também reiterou intenção de que a Petrobras recompre a refinaria de Mataripe. A refinaria foi vendida pela estatal brasileira em 2021, no governo Jair Bolsonaro, para o fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos Mubadala.
O presidente também fez a avaliação de que a inflação está baixa no Brasil e voltou a defender a redução da taxa básica de juros, atualmente em 14,75% ao ano.
Lula disse ainda à emissora baiana que a compra de casa assistida pode se tornar permanente no âmbito do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, defendeu a necessidade de o Congresso Nacional aprovar a proposta de emenda à Constituição da Segurança Pública e ainda apontou a China como o país que tem mostrado mais disposição de trabalhar com o Brasil.
(Por Lisandra Paraguassu, em Brasília; reportagem adicional de Marta Nogueira; texto de Eduardo Simões; edição de Paula Arend Laier, Isabel Versiani e Letícia Fucuchima)