Sob escassez e sem combustível, cubanos veem mudança na Venezuela quase com esperança
Os carros que circulam pelas cada vez mais vazias ruas e avenidas de Havana carregam um tesouro em si. Com uma escassez absoluta de combustíveis desde que os EUA impuseram um bloqueio efetivo contra Cuba, no início do ano – após a queda do presidente venezuelano, Nicolás Maduro –, o preço da gasolina disparou para incríveis US$ 9 o litro (cerca de R$ 46, sete vezes mais do que a média no Brasil). Para encher um só tanque de um carro popular em Cuba, hoje são precisos quase US$ 500 (R$ 2.570), o equivalente ao salário médio de um médico cubano por mais de três anos de trabalho ininterrupto.
Nas últimas semanas, Havana se transformou em uma cidade de caminhantes. Há gente andando pelas ruas, pelas avenidas, pelas praças, todos tentando encontrar uma solução para esta que é a pior crise de combustíveis da História recente de Cuba. Desde o início de janeiro, o governo americano não permitiu a entrada de sequer um litro de petróleo no país, seja por pressões tarifárias, seja por bloqueio marítimo aos navios petroleiros que tentaram entrar em águas cubanas nestes dois meses.
“Jamais, em toda a minha vida, vivi o que estamos vivendo agora, simplesmente não há mais combustível para comprar”, disse José, um taxista de confiança do corpo diplomático.
Há duas semanas, ele não sai da posição 6.523 em uma fila virtual de abastecimento, com mais de 10 mil motoristas, organizada pelo governo. “Me pergunto se eles vão encontrar alguma solução, ou se vamos voltar aos tempos das charretes. Estamos vivendo um dia de cada vez”, reclamou.
José é apenas um dos dezenas de cubanos que encontrei em Havana na última semana que perderam o medo de criticar o regime que controla o país com mão de ferro desde a revolução liderada por Fidel Castro e Che Guevara, no final dos anos 1950.
Nos últimos meses, a moeda cubana sofreu forte desvalorização e a inflação de alimentos tornou quase tudo inalcançável para aqueles que não recebem remessas de parentes do exterior ou fazem dinheiro em dólar trabalhando para os turistas. Oficialmente, o governo cubano mantém as bodegas, minimercados que vendem a preços subsidiados e com cotas de racionamento para qualquer cidadão do país.
Bodegas vazias
Mas, apesar de estarem espalhadas por toda parte, estão quase sempre vazias, com poucos produtos à disposição, em geral arroz, detergente e, raramente, alguma carne enlatada, como as populares salsichas. Apenas os cigarros simples, sem filtro, embalados em papel, são fartos nas bodegas. E o que parece ruim vai piorar.
Na última semana, o presidente Miguel Díaz-Canel foi às redes recomendar que os cubanos adequassem sua dieta à nova realidade do país. “Temos de aceitar que os alimentos não vão mais circular, por isso precisamos comer o que é produzido localmente, é preciso resistir”, disse.
Nas ruas, a recomendação causa ojeriza aos cubanos simples, que dizem viver a maior crise de suas vidas.
“De onde vamos tirar mais resistência? Estamos resistindo há anos, e tudo só piora, nada muda. O que estamos vivendo agora é pior do que o Período Especial”, disse Marta na porta de uma farmácia em Havana.
Escassez de remédios, comida e dinheiro não são uma novidade para os cubanos, acostumados a viver em um ciclo de crises recorrentes. A última, ainda reflexo da pandemia de Covid-19, fez o país perder os avanços que havia conquistado com o forte fluxo de turistas de todo o mundo que chegavam à ilha para desfrutar de suas praias paradisíacas.
A redução na entrada de moeda forte, em conjunto com as mudanças climáticas, quase destruiu a incipiente produção agrícola do país. De acordo com o próprio Ministério da Agricultura, Cuba registrou reduções drásticas na produção de alimentos. Entre 2018 e 2023, a produção de frango caiu 94%; a de arroz, 87%; a de feijão, 70%; e a de ovos, 66%. (As informações são de O Globo)
Fonte: Jornal O Sul
