Por que os preços dos combustíveis estão subindo nas bombas; entenda

 



A alta recente dos preços dos combustíveis nos postos é reflexo de um conjunto de fatores que teve início com a guerra no Oriente Médio. A lista inclui cotações mais altas do petróleo, leilões da Petrobras para gasolina e diesel realizados a preços de mercado, acima dos praticados nas refinarias da estatal, e importações de derivados também a valores vinculados ao exterior.

Dados atualizados sobre o monitoramento dos combustíveis, divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) na sexta-feira (20), mostram que os preços do diesel S-10 subiram 19,51% nas bombas desde o início do conflito no Oriente Médio. Em média, o combustível está sendo vendido a R$ 7,35 por litro ante R$ 6,15% no dia 1º de março, primeiro dia registrado pela agência após o início da guerra no Irã.

Executivos dos segmentos de distribuição e revenda entendem que a Petrobras tem contribuído para a escalada dos preços nas bombas ao promover uma distorção no mercado. Essa distorção estaria no fato de a empresa vender combustíveis a preços defasados nas refinarias em relação ao mercado internacional e, simultaneamente, ter feito leilões com “ágios” para as distribuidoras a preços internacionais.

Desde o começo da guerra, a Petrobras só aumentou o diesel uma vez nas refinarias, uma alta de 11,6% no sábado (14), percentual insuficiente diante do aumento do petróleo no mercado internacional nas últimas semanas, que chegou próximo dos US$ 120 por barril na quinta-feira (19). A Petrobras se defende dizendo que tem antecipado e aumentado volumes de combustível às distribuidoras.

Na visão de executivos da distribuição e revenda, podem ocorrer casos de reajustes abusivos, mas o que a maioria dos atores tem feito é repassar os custos mais elevados dos últimos dias. Também há preocupação em relação a possíveis desabastecimentos.

O que aconteceu com os preços? O último levantamento da ANP sobre os preços praticados no mercado mostra que, além da alta de quase 20% nos preços do diesel nas bombas, a gasolina comum teve aumento de 5,56% desde o início do conflito, quando o preço médio era de R$ 6,30 por litro e passou para R$ 6,65 por litro nesta última semana.

O produto teve variação semanal de 2,94%, quando comparado com os R$ 6,46 por litro da semana anterior.

O etanol hidratado subiu apenas 1,95% desde 28 de fevereiro, passando de R$ 4,61 por litro, em média, para R$ 4,70 por litro. Na última semana, o preço médio do etanol subiu 1,29% em relação aos R$ 4,64 por litro da semana anterior.

Outro levantamento, feito pelo Índice de Preços Edenred Ticket Log (IPTL), da Edenred Mobilidade, indica que o preço do diesel subiu 6,44%, passando de R$ 7,02 para R$ 7,48 entre a segunda e a terceira semanas de março. A alta acumulada desde o começo dos conflitos é superior a 20%.

O diesel comum, S-500, com alto teor de enxofre, teve reajuste de 6,41%, passando de R$ 6,90 para R$ 7,34 por litro, durante a semana, mostra o IPTL.

No caso da gasolina, os preços variaram 2,34% entre a segunda e a terceira semana de março, passando de R$ 6,63 para R$ 6,79 por litro, enquanto o etanol avançou 0,86%, de R$ 4,89 para R$ 4,93, segundo o IPTL.

O levantamento é feito com base em abastecimentos realizados em 21 mil postos credenciados da Ticket Log.

“Esse nível de preço foi atingido em um intervalo curto de tempo, em um cenário que ainda está em movimento. A evolução nas próximas semanas vai depender tanto do ambiente internacional quanto de eventuais ajustes no mercado doméstico”, disse Vinicios Fernandes, diretor de unidades de negócio da Edenred Mobilidade.

A Petrobras é a principal produtora de combustíveis do país, com cerca de dois terços do mercado nacional, no caso do óleo diesel. A estatal possui nove refinarias.

O restante é suprido por refinarias privadas, que compram óleo no exterior ou diretamente de petroleiras independentes no mercado doméstico. Há ainda importadores de combustíveis, que suprem as lacunas que não conseguem ser atendidas pela produção nacional.

As distribuidoras de combustíveis possuem contratos com a Petrobras para comprar combustíveis mensalmente, a preços da refinaria. Não há valores fixos: a compra corresponde a cotas mensais, proporcionais à participação de mercado de cada empresa.

Um exemplo hipotético seria o caso de uma distribuidora que possui 20% de participação de mercado e tem contrato com a Petrobras. Se a estatal disponibilizou um milhão de litros de diesel S-10 para atender aos contratos em março, a cota dessa distribuidora seria de 200 mil litros.

As distribuidoras compram mais ou menos combustíveis em função dos estoques. Caso tenham muito diesel armazenado, compram menos produto da Petrobras e importam menos.

Da mesma forma, caso tenham pouca gasolina em estoque podem comprar mais da estatal e completar o que excede à cota mensal de refinarias privadas.

No caso dos importadores, em geral costumam levar 40 dias para entregar a carga, a partir da data em que o pedido é realizado.

O mercado também considera as importações do “modo compliance”, segundo uma fonte. São cargas de origens como da Rússia, que sofre sanções de Estados Unidos e Europa por causa da guerra na Ucrânia, iniciada em 2022. Nem todo diesel russo é sancionado, mas há volumes com sanções vendidos abaixo das cotações internacionais.

Um dos agentes de mercado ouvidos pelo jornal Valor Econômico diz que a formação de preços dos combustíveis é sempre associada ao que é praticado no mercado externo, embora a Petrobras não repasse a volatilidade internacional diretamente para os preços no mercado doméstico.

A guerra no Oriente Médio, que começou em 28 de fevereiro, logo se refletiu sobre os preços dos combustíveis: com preços do petróleo do tipo Brent (referência internacional) mais elevados, as cotações dos derivados também acompanharam a trajetória.

Os preços médios do exterior são chamados de preço de paridade de importação (PPI). Até 2023 a Petrobras utilizava o PPI como critério para aumentar ou reduzir os preços dos combustíveis nas refinarias. A partir daquele ano, a Petrobras passou a adotar um modelo que considera o melhor custo para os clientes, de acordo com questões logísticas internas.

No caso do diesel, a demanda é atendida em parte por importações, pois a capacidade de refino do país não é suficiente para atender a todo o mercado nacional. A produção nacional atenderia cerca de 70% da demanda com os restantes 30% abastecidos por importações.

Refinarias privadas também negociam os derivados com base no PPI. Com preços mais elevados por causa da guerra, esses agentes passaram a vender com preços mais caros para as distribuidoras completarem o mix. As informações são do jornal Valor Econômico.

Fonte: Jornal O Sul