Grandes bancos centrais mantêm opções em aberto enquanto operadores apostam em alta de juros por guerra
Por Alun John
LONDRES, 20 Mar (Reuters) - Quase todos os principais bancos centrais de mercados desenvolvidos mantiveram as taxas de juros nesta semana, mas enfatizaram sua prontidão de agir para conter a inflação caso o choque energético causado pelos ataques israelenses e norte-americanos contra o Irã provoque um aumento mais amplo dos preços.
Desde o início da guerra, operadores reduziram suas apostas em um afrouxamento monetário por parte do Federal Reserve este ano e precificaram aumentos de juros por outras autoridades monetárias, inclusive pelo Banco Central Europeu e pelo Banco da Inglaterra.
O banco central da Austrália, já em modo de alta, aumentou a taxas de juros novamente esta semana.
Esta é a posição dos 10 bancos centrais de mercados desenvolvidos, classificados pela taxa de juros básica mais alta para a mais baixa:
1/ AUSTRÁLIA
O banco central da Austrália aumentou a taxa de juros pelo segundo mês consecutivo na terça-feira, para 4,1%, alertando sobre um risco "material" para a inflação decorrente da guerra.
O núcleo da inflação atingiu uma máxima de 16 meses de 3,4% em janeiro e está subindo. Os mercados veem pelo menos mais dois, provavelmente três, aumentos de juros este ano, o que levaria as taxas acima do pico registrado no final de 2023
2/ NORUEGA
O Norges Bank se reúne na próxima semana. A inflação persistente fez com que ele fosse um dos bancos centrais mais cautelosos de mercados desenvolvidos, cortando a taxa de juros apenas duas vezes no ano passado em relação à máxima de 4,5% registrada no final de 2023.
Os mercados veem um aumento como o próximo movimento, e um está totalmente precificado até agosto.
3/ REINO UNIDO
O Banco da Inglaterra manteve a taxa de juros em 3,75% na quinta-feira, mas operadores consideraram o comunicado pós-reunião como "hawkish", e agora veem 50% de chance de um aumento de 25 pontos-base na taxa de juros até abril, e talvez três altas até o final do ano
O banco central disse estar alerta ao risco de que expectativas de inflação mais alta se enraizassem na economia e, embora tenha reconhecido os riscos de uma desaceleração econômica, disse que a inflação mais alta é o risco maior .
4/ ESTADOS UNIDOS
O Federal Reserve manteve a taxa de juros na quarta-feira na faixa de 3,50% a 3,75%, mas o tom "hawkish" do chair Jerome Powell fez com que operadores adiassem as expectativas de corte para 2027.
O Fed cortou a taxa de juros pela última vez em dezembro. Antes da guerra, os mercados precificavam duas reduções de 25 pontos-base este ano - agora eles não veem praticamente nenhuma chance de uma mudança.
Embora o banco central mais relevante do mundo tenha mantido suas projeções anteriores de um corte de juros em 2026, ele projetou uma inflação mais elevada neste ano do que anteriormente.
Powell descreveu desafios significativos para reduzir a inflação, desde os persistentes aumentos de preços decorrentes de tarifas até a alta da energia devido à guerra no Irã. Ele disse que o Fed pode não ser capaz de olhar para este último como um choque transitório.
5/ NOVA ZELÂNDIA
O banco central da Nova Zelândia se reúne no início de abril. Ele reduziu a taxa de juros mais agressivamente do que a maioria de seus pares em 2024 e 2025, para 2,25%. Ainda assim, os mercados acreditam que o próximo movimento será um aumento, e três altas são precificadas até o final do ano.
6/ CANADÁ
O Banco do Canadá manteve sua taxa de juros em 2,25% na quarta-feira, conforme esperado, mas o presidente Tiff Macklem advertiu que está pronto para aumentar os custos dos empréstimos se houver o risco de preços mais altos da energia se transformarem em inflação persistente.
O banco tem mantido sua taxa de juros básica desde outubro. Os mercados precificam pelo menos um aumento de 25 pontos-base até o final do ano, mas não o consideram provável até o terceiro trimestre.
7/ ZONA DO EURO
O Banco Central Europeu deixou as taxas de juros inalteradas na quinta-feira, conforme esperado, mas pode ser necessário começar a discutir aumentos em abril e promover um aperto monetário logo em seguida, disseram fontes à Reuters.
Bancos alteraram suas previsões para o BCE e os mercados agora antecipam mais de dois aumentos de 25 pontos-base na taxa de depósito de 2% do BCE este ano, pois acreditam que as autoridades, acusadas de agirem tarde demais em relação à alta da inflação de 2021/2022, serão mais rápidos em puxar o gatilho desta vez.
8/ SUÉCIA
O banco central sueco manteve sua taxa de juros básica em 1,75% na quinta-feira e, assim como seus pares, sinalizou que a incerteza é elevada. Os mercados também precificam aumentos da taxa de juros este ano.
9/ JAPÃO
O Banco do Japão não é mais o único banco central em modo de alta de juros, embora esteja se movendo com cautela e, na quinta-feira, manteve a taxa na máxima de 30 anos de 0,75%.
O presidente Kazuo Ueda disse, no entanto, que a diretoria do banco central está um pouco mais focada nos riscos de alta da inflação do que nos riscos de baixa para o crescimento decorrentes do conflito, mantendo vivas as expectativas do mercado de um aumento da taxa de juros no curto prazo.
Essas falas fizeram com que o iene se valorizasse.
10/ SUÍÇA
O Banco Nacional da Suíça manteve na quinta-feira sua taxa básica de juros em 0%, a mais baixa entre os principais bancos centrais, e sinalizou prontidão em intervir para conter a recente alta do franco suíço. A moeda está sendo negociada em torno da máxima de 11 anos em relação ao euro.
A inflação suíça foi de apenas 0,1% em março, e a valorização do franco ameaça empurrá-la para abaixo da meta de 0%-2% do banco central.
(Reportagem de Alun John)