Exportação de carne de frango do Brasil deve crescer em março apesar de guerra, diz ABPA
Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 27 Mar (Reuters) - As exportações de carne de frango do Brasil em março caminham para terminar o mês com um volume acima do total registrado no mesmo período do ano passado, apesar da guerra no Golfo Pérsico, disse o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) à Reuters.
Segundo Ricardo Santin, o setor está conseguindo alternativas para desembarcar o produto na região afetada pelo conflito -- onde estão alguns dos principais importadores -- ou desviando cargas para outros destinos.
"Se olhar a média (de exportação) diária do mês de março... está acenando que a gente consegue fazer um pouco mais em relação a março do ano passado", disse Santin, presidente da associação que reúne empresas como MBRF e Seara, da JBS.
Ele disse que os volumes de março, segundo dados da associação -- que tem acesso a números de embarques totais, não apenas da carne in natura --, "acenam" para serem superiores ao total de 476 mil toneladas de março do ano passado.
Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado devido à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, as exportações de carne de frango brasileira estão chegando ao Oriente Médio via Mar Vermelho, enquanto alguns navios acessam a área pelo Canal de Suez.
O Oriente Médio recebeu cerca de 30% da carne de frango exportada em 2025 pelo país, o maior exportador global da proteína, de acordo com levantamento da consultoria Datagro, que vê o produto como um dos mais expostos a riscos pelo conflito entre todas as exportações agropecuárias do Brasil.
Mas as empresas exportadoras têm sido muito "resilientes", conseguindo realizar boa parte das entregas por outras rotas, disse Santin.
"Começaram a criar alternativas. O Iraque é atendido via Turquia; o Catar e os Emirados Árabes Unidos podem buscar o produto na Arábia Saudita. Tem alternativa de Omã... e um porto no próprio Emirados Árabes que fica antes do Estreito de Ormuz", afirmou o presidente da ABPA.
Ele explicou que as empresas também têm se valido de rotas rodoviárias para transportar o produto até os destinos finais, após o desembarque nos portos alternativos, o que colabora para elevar custos, conforme já tinham comentado executivos da MBRF e da JBS.
No ano passado, os Emirados Árabes Unidos foram os maiores compradores da carne de frango do Brasil, enquanto a Arábia Saudita foi o terceiro importador, conforme dados da ABPA. Entre outros importantes destinos no Oriente Médio estão o Iraque (11º importador), Catar (16º), Omã (18º), Jordânia (21º), Iêmen (22º) e o Barein (32º).
"São alternativas que demoram mais, são mais custosas", disse Santin, sobre as outras rotas que as companhias estão adotando para viabilizar as exportações. "Mas inclusive eles estão comprando mais, quando eles acham uma maneira de transportar, os pedidos ficam até maiores."
Santin disse ainda que parte dos importadores aceita pagar parte dos custos maiores, já que eles buscam manter seus estoques em um ambiente de guerra.
"Tem a chamada taxa de guerra... tem uma série de custos que estão sendo negociados nas cargas novas. Mas o primeiro ponto que olhamos com o setor é tentar manter a entrega, sendo possível e o cliente aceitando pagar, estamos fazendo a entrega", afirmou.
O dirigente da ABPA disse que houve uma evolução na logística de transporte em relação ao início da guerra, quando as opções do Canal Suez e do Mar Vermelho ficaram momentaneamente fechadas.
"A cadeia está conseguindo resistir, está absorvendo parte do custo, e uma parte está sendo dividida com o importador", disse Santin, citando o aumento do combustível pela alta do petróleo e custos com armazenamento e transporte dos contêineres.
O presidente da ABPA disse não ter informação se todo o fluxo previsto para março para o Oriente Médio está sendo mantido com as alternativas logísticas, ou se o setor redirecionou parte dos embarques para outros destinos fora da região do conflito.
Mas disse que, com as exportações caminhando para um crescimento em março, não está sobrando frango no mercado interno.
Havia preocupações da indústria de que, se o Brasil não conseguisse exportar os volumes previstos por conta da guerra, haveria pressão sobre os preços.
(Por Roberto Samora)