Governo do Irã foi enfraquecido, mas parece intacto, diz principal espiã dos EUA
Por Patricia Zengerle e Doina Chiacu e Jonathan Landay
WASHINGTON, 18 Mar (Reuters) - O governo do Irã sofreu desgaste desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, mas parece estar intacto -- Teerã e seus representantes continuam capazes de atacar os interesses dos Estados Unidos e de seus aliados no Oriente Médio, disse nesta quarta-feira a diretora de Inteligência Nacional dos EUA (DNI, na sigla em inglês), Tulsi Gabbard.
"O regime no Irã parece estar intacto, mas amplamente degradado pela Operação Fúria Épica", disse Gabbard, referindo-se à campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã, em seu discurso de abertura na audiência anual do Comitê de Inteligência do Senado sobre as Ameaças Mundiais aos Estados Unidos.
"Mesmo assim, o Irã e seus representantes continuam capazes e continuam a atacar os interesses dos EUA e de seus aliados no Oriente Médio. Se um regime hostil sobreviver, ele procurará iniciar um esforço de anos para reconstruir suas forças de mísseis e UAV (drones)", disse ela.
A expectativa era que a audiência se concentrasse na guerra do Irã, agora em sua terceira semana, já que os parlamentares -- incluindo alguns dos pares do presidente Donald Trump republicanos e também democratas -- querem mais informações sobre uma campanha aérea que matou milhares de pessoas, interrompeu a vida de milhões e abalou os mercados de energia e de ações.
Os democratas, em particular, reclamaram que o governo não manteve o Congresso adequadamente informado sobre um conflito que custou bilhões aos contribuintes dos EUA e exigiram depoimentos públicos em vez de reuniões confidenciais realizadas nas últimas duas semanas.
O depoimento de autoridades, incluindo Gabbard e o diretor da CIA, John Ratcliffe, provavelmente também abordará o anúncio chocante, na terça-feira, de que um dos principais assessores de Gabbard havia se demitido, citando a guerra como motivo.
Joe Kent, que chefiava o Centro Nacional de Contraterrorismo, é o primeiro funcionário sênior do governo Trump a renunciar por causa do conflito.
O gabinete do DNI supervisiona o centro de contraterrorismo e Kent é próximo de Gabbard, que manteve um perfil discreto desde o início da guerra contra o Irã.
"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que começamos essa guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby", escreveu Kent em uma carta publicada nas redes sociais.
A Casa Branca rejeitou a afirmação de Kent, dizendo que sua carta incluía "falsas alegações".
A avaliação da ameaça que Gabbard apresentou ao comitê aumentou a confusão sobre o estado do programa nuclear do Irã. Algumas autoridades do governo disseram, no período que antecedeu a guerra, que o Irã estava a semanas de desenvolver uma arma nuclear, um dos motivos apresentados para iniciar os ataques aéreos.
Nesta quarta-feira, Gabbard disse que o programa de enriquecimento nuclear do Irã foi destruído em ataques dos EUA e de Israel em junho e que Washington não viu nenhum esforço desde então para reconstruir sua capacidade de enriquecimento.
Surgiram dúvidas sobre o que foi dito a Trump antes de ele decidir se unir a Israel para atacar o Irã.
Fontes familiarizadas com os relatórios de inteligência dos EUA disseram que Trump foi avisado, por exemplo, que atacar o Irã poderia desencadear uma retaliação contra os aliados do Golfo dos EUA, apesar de suas afirmações na segunda-feira de que a reação de Teerã foi uma surpresa.
A declaração de Trump veio na esteira de outras alegações do governo que não foram respaldadas por relatórios da inteligência dos Estados Unidos, como a de que o Irã em breve teria um míssil capaz de atingir o território continental dos EUA e que levaria de duas a quatro semanas para fabricar uma bomba nuclear.
Trump também foi informado antes da operação que Teerã provavelmente tentaria fechar o Estreito de Ormuz, de acordo com duas outras fontes familiarizadas com o assunto.
(Reportagem de Patricia Zengerle, Doina Chiacu e Jonathan Landay; reportagem adicional de Michael Martina; edição de Don Durfee e Cynthia Osterman)