Contratação de energia renovável cresce no Brasil apesar da crise, diz estudo

 



Por Leticia Fucuchima

SÃO PAULO, 25 Mar (Reuters) - A contratação de energia eólica e solar no Brasil voltou a registrar crescimento no ano passado apesar da crise enfrentada pelo segmento, impulsionada por uma corrida entre as empresas para fechar negócios antes de uma mudança na lei, de acordo com um estudo divulgado nesta quarta-feira pela Clean Energy Latin America (Cela).

O levantamento da consultoria mostrou que 40 contratos de energia renovável foram assinados no mercado livre brasileiro em 2025, somando 1.207 megawatts-médios (MWmédios) negociados e 4,2 gigawatts (GW) de capacidade instalada nas usinas geradoras.

Em volume de energia, as transações aumentaram 83,2% em relação a 2024, quando foram negociados 659 MWmédios, provenientes de 31 acordos celebrados e 2,3 GW de capacidade.

Segundo a CEO da Cela, Camila Ramos, esse crescimento reflete principalmente a antecipação de negócios entre empresas antes de uma mudança legislativa que alterou as regras para a autoprodução de energia, principal modalidade buscada por grandes consumidores de energia, como indústrias, para contratar o insumo.

Na autoprodução, as empresas consumidoras de energia entram como sócias nos empreendimentos de geração, o que lhes garante benefícios tarifários, como isenção de encargos, e custos mais competitivos no insumo. Uma reforma do setor elétrico aprovada no ano passado limitou essa modalidade, ao aumentar a demanda mínima de energia para os negócios e também o equity mínimo que o consumidor deve se comprometer na sociedade com o gerador.

"Não consigo dizer se vai ter desaceleração ou não (da autoprodução), mas é fato que houve uma corrida no ano passado, então eu acho difícil 2026 ser igual a 2025. A não ser que haja mudanças como aceleração de data centers, amadurecimento do mercado de hidrogênio, que são cargas muito grandes", disse Ramos.

Ela destacou ainda que, entre os contratos mapeados pela Cela, todos os de 2025 foram fechados no modelo de autoprodução, o que evidencia uma mudança do mercado de energia brasileiro, que passa a preferir estruturas "mais sofisticadas e customizadas" em vez dos contratos "PPAs".

A assinatura de novos compromissos comerciais de energia eólica e solar avançou no Brasil mesmo diante de uma grave crise enfrentada pelos geradores renováveis no âmbito físico do sistema de energia, decorrente dos cortes de produção de suas usinas impostos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

O problema, que ocorre por falta de demanda para absorver toda a energia gerada ou gargalos da rede elétrica, vem impondo perdas milionárias para as geradoras renováveis, que têm sua receita afetada pela restrição às usinas e precisam comprar energia adicional para honrar com contratos. Companhias como Auren e CPFL registraram perdas na casa de R$500 milhões em 2025 como reflexo dos cortes de geração.

"Vai depender muito da demanda (por novos contratos)", disse Ramos, acrescentando que, além das grandes empresas que tradicionalmente adotam a autoprodução, como mineradoras e indústrias químicas, há um movimento de adoção da modalidade por consumidores diferentes, como data centers, o que também ajudou as contratações de 2025.

A Cela também divulgou um levantamento de contratos de energia renováveis assinados na última década. Ao todo, foram contabilizados 214 contratos em 10 anos, equivalentes a 6,04 GWmédios de energia negociada e 21,8 GW de capacidade instalada associada. Em investimentos, a energia contratada representou cerca de R$88,8 bilhões em uma década, de acordo com o estudo.



(Por Letícia Fucuchima).